Em um oceano de editais, apostilas e videoaulas, a sensação de estar sobrecarregado é quase universal entre os concurseiros. A grande questão não é apenas “o que” estudar, mas “como” estudar para que o conhecimento seja não apenas adquirido, mas retido e facilmente acessado no dia da prova. A boa notícia? A ciência da aprendizagem e a neurociência já mapearam o caminho. Este não é um artigo sobre dicas motivacionais, mas um guia prático, passo a passo, baseado em evidências científicas robustas para transformar seu cérebro em uma verdadeira máquina de aprovação.
O cérebro humano não é um depósito passivo de informações. Ele é um músculo que, quando treinado com as técnicas corretas, pode realizar feitos incríveis de memorização e aprendizado. Vamos abandonar os métodos ultrapassados e mergulhar no que a pesquisa científica comprovou ser mais eficaz.
Passo 1: Abandone a Passividade e Abrace o Estudo Ativo
A imagem clássica do estudante com marcadores de texto, grifando páginas e relendo a mesma matéria por horas a fio, é a representação perfeita do estudo passivo. A ciência é clara: essa é uma das maneiras menos eficientes de aprender. O cérebro tende a entrar em modo de piloto automático, dando uma falsa sensação de familiaridade com o conteúdo, mas falhando em criar memórias de longo prazo.
A solução é o estudo ativo, um processo que exige que seu cérebro se esforce para recuperar informações.
Como aplicar o Estudo Ativo:
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Teste Prático (ou Efeito Teste): Em vez de apenas reler um capítulo sobre Direito Administrativo, feche o livro e tente responder a perguntas sobre o tema. Resolva dezenas, centenas de questões de provas anteriores. Pesquisas demonstram que o ato de forçar o cérebro a buscar uma informação fortalece a trilha neural associada a ela, tornando a recuperação futura muito mais rápida e fácil.
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Técnica Feynman: Escolha um conceito complexo (ex: “controle de constitucionalidade”). Escreva em uma folha de papel uma explicação sobre esse conceito usando a linguagem mais simples possível, como se estivesse ensinando a uma criança de 10 anos. Este ato de simplificação força você a compreender verdadeiramente o assunto em seus mínimos detalhes e a identificar lacunas em seu próprio conhecimento. Onde você “emperrar” na explicação, volte ao material de estudo para solidificar aquele ponto.
Passo 2: Derrote a “Curva do Esquecimento” com a Repetição Espaçada
Em 1885, o psicólogo alemão Hermann Ebbinghaus descobriu algo que todo estudante sente na pele: o esquecimento é exponencial. A “Curva do Esquecimento” (gráfico abaixo) mostra que, sem revisão, perdemos a maior parte do que aprendemos em questão de dias.
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Visualização genérica da Curva do Esquecimento de Ebbinghaus, mostrando o declínio da retenção de memória ao longo do tempo sem revisão.
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A arma mais poderosa contra essa curva é a Repetição Espaçada. Em vez de revisar um assunto massivamente em um único dia, a técnica consiste em revisar a informação em intervalos de tempo crescentes.
Como aplicar a Repetição Espaçada:
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Primeira revisão: 24 horas após o primeiro contato com o material.
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Segunda revisão: 7 dias depois.
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Terceira revisão: 30 dias depois.
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Revisões subsequentes: A cada 30-45 dias.
Cada revisão “achata” a curva do esquecimento, fortalecendo a memória de longo prazo. Ferramentas como o Anki (um software gratuito de flashcards) são projetadas especificamente com base neste algoritmo e podem automatizar o agendamento de suas revisões.
Passo 3: Misture Tudo com o Estudo Intercalado
Estudar um único assunto por horas a fio (estudo em bloco) pode parecer produtivo, mas a ciência mostra que intercalar diferentes matérias em uma mesma sessão de estudos leva a uma aprendizagem mais robusta e duradoura. Isso acontece porque o “estudo intercalado” (ou interleaving) força o cérebro a trabalhar mais para diferenciar os conceitos e escolher a estratégia correta para cada tipo de problema.
Como aplicar o Estudo Intercalado:
Em vez de estudar Português por 3 horas seguidas, divida seu tempo em blocos menores. Por exemplo:
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45 minutos de Português (teoria e questões)
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15 minutos de pausa
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45 minutos de Raciocínio Lógico (questões)
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15 minutos de pausa
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45 minutos de Direito Constitucional (revisão ativa)
Essa alternância entre áreas do conhecimento distintas (linguagens, exatas, direito) maximiza os benefícios da técnica.
Passo 4: Durma para Consolidar o Aprendizado
Muitos concurseiros sacrificam o sono em nome de mais horas de estudo. Cientificamente, este é um dos maiores erros que você pode cometer. É durante o sono, especificamente nas fases de sono profundo e REM, que o cérebro consolida as memórias do dia.
O hipocampo, uma região cerebral crucial para a formação de novas memórias, “repete” as informações aprendidas durante o dia para o neocórtex, onde elas são armazenadas a longo prazo. Privar-se de sono é como salvar um arquivo em um computador e desligá-lo da tomada antes que o processo seja concluído.
Provas reais: Estudos de neuroimagem mostram que as mesmas regiões cerebrais ativadas durante o aprendizado de uma nova tarefa são reativadas durante o sono. Uma noite de sono de qualidade (7-9 horas para a maioria dos adultos) após o estudo melhora drasticamente a retenção do conteúdo no dia seguinte.
Passo 5: Nutra seu Cérebro para a Maratona
O cérebro é um órgão com alta demanda energética. Sua performance cognitiva está diretamente ligada à sua nutrição. Embora não exista uma “dieta milagrosa”, a ciência aponta para alguns padrões que podem otimizar a função cerebral.
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Evite picos de glicose: Dietas ricas em açúcares e carboidratos simples podem levar a picos de energia seguidos por quedas bruscas (a “névoa mental”), prejudicando a concentração. Priorize carboidratos complexos (grãos integrais, batata doce), que liberam energia de forma mais lenta e estável.
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Gorduras saudáveis: Ácidos graxos como o Ômega-3 (presente em peixes, nozes e sementes de chia) são componentes fundamentais das membranas celulares dos neurônios e possuem propriedades anti-inflamatórias que protegem o cérebro.
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Hidratação: A desidratação, mesmo que leve, já demonstrou em estudos causar redução na atenção, memória e outras habilidades cognitivas. Mantenha uma garrafa de água sempre por perto.
Colocando a Ciência em Prática: Um Resumo do Método
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Inicie o estudo de um novo tópico de forma ativa: Faça anotações como se fosse ensinar, crie mapas mentais e, principalmente, resolva questões imediatamente após a teoria.
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Agende sua primeira revisão para o dia seguinte (24h): Use flashcards ou refaça as questões que errou.
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Planeje sua semana de estudos de forma intercalada: Alterne matérias que exijam diferentes tipos de raciocínio.
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Agende as revisões espaçadas subsequentes (7 dias, 30 dias…): Use um aplicativo como o Anki ou uma agenda para não perder os prazos.
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Priorize seu sono: Entenda que dormir não é perda de tempo, mas uma etapa crucial do processo de aprendizagem.
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Cuide da sua alimentação e hidratação: Dê ao seu cérebro o combustível de que ele precisa para operar em alta performance.
A jornada até a aprovação é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Adotar essas estratégias baseadas na ciência não apenas tornará seus estudos mais eficientes, mas também mais sustentáveis a longo prazo. Pare de lutar contra o seu cérebro e comece a trabalhar com ele. Os resultados, comprovados pela ciência, virão.